Quase metade dos trabalhadores da indústria brasileira não pratica atividade física nos momentos de lazer
Quase 50% dos profissionais que atuam na indústria não exercem atividade física nos momentos de lazer, enquanto 1 em cada 5 relata níveis elevados de estresse. O levantamento, chamado VigIndústria Brasil, foi divulgado na terça-feira (1º) durante o Conecta Saúde 2026, em São Paulo, e foi conduzido pelo Serviço Social da Indústria (SESI) em parceria com o Conselho Nacional do SESI (CN-SESI) e o Ministério da Saúde.
O estudo, que contou com 57.952 trabalhadores de 825 empresas entre julho e dezembro de 2025, analisou 33 indicadores em seis dimensões: sociodemográfica, comportamentos de risco, bem‑estar mental, morbidade referida, percepção de saúde e autocuidado, e cultura de segurança.
Além da inatividade física, 71% dos entrevistados consomem poucas frutas e hortaliças. Cerca de 34% passam três horas ou mais por dia em computadores, tablets ou celulares durante o lazer, seja para redes sociais, filmes ou jogos. Entre os trabalhadores com menos de 30 anos, esse percentual sobe para 48%, segundo Georgia Matos, especialista em saúde integral do SESI.
“Os jovens têm apresentado indicadores de risco relacionados à hiper‑conexão, com muito tempo de tela. Isso afeta o sono, a qualidade dos relacionamentos e o nível de estresse. É algo que chamou atenção, e acho que as indústrias precisam ficar muito atentas,” destaca Matos.
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O levantamento aponta que 20,3% dos trabalhadores relatam estresse elevado, 18,7% têm dificuldade para relaxar e aproveitar o tempo de lazer, e 21% dos menores de 30 anos enfrentam esses mesmos problemas. O diretor administrativo adjunto da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), Ricardo de Almeida Sebba, alerta que inatividade física, alimentação inadequada, excesso de peso, estresse persistente, sono de má qualidade e uso excessivo de telas não atuam isoladamente, mas se somam e potencializam seus efeitos ao longo dos anos.
“Esse conjunto aumenta a probabilidade de obesidade, hipertensão arterial, alterações do colesterol, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral e alguns tipos de câncer. Também favorece perda de condicionamento físico, redução de força muscular, dores e limitações osteomusculares. No campo da saúde mental, pode contribuir para distúrbios do sono, ansiedade, depressão e esgotamento profissional,” explica Sebba.
No que diz respeito à morbidade crônica, a obesidade lidera, presente em 22,7% dos trabalhadores. Em seguida, problemas crônicos de coluna (19%), colesterol alto (17%) e hipertensão (16%). A prevalência de diabetes aumenta com a idade, passando de 3% entre os menores de 30 anos para 8% na faixa de 40 a 59 anos e atingindo 22% entre os que têm 60 anos ou mais.
Quanto à percepção de segurança no ambiente de trabalho, 84% dos entrevistados afirmam que a segurança é importante para a empresa, e mais de sete em cada dez consideram o ambiente seguro. No entanto, a frequência de treinamento para situações de emergência varia de acordo com o porte da empresa: 56% dos trabalhadores de micro e pequenas indústrias recebem esse treinamento, enquanto o percentual sobe para 68% nas médias e grandes empresas.
Os resultados do VigIndústria Brasil fornecem dados concretos que podem orientar as empresas na definição de prioridades e no planejamento de ações de promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas. “Os dados precisam chegar à tomada de decisão. Se identificamos, por exemplo, uma concentração maior de determinado fator de risco em uma população, essa informação deve ajudar a orientar programas, campanhas, acompanhamento e ações específicas para aquele grupo,” afirma Georgia Matos.
Para o presidente do Conselho Nacional do SESI, Fausto Junior, o levantamento reforça a importância da articulação entre governo, Sistema Indústria e empresas. “Pela sua capilaridade e presença no mundo do trabalho, o SESI pode somar esforços e ampliar o alcance das ações de promoção, prevenção e cuidado junto aos trabalhadores da indústria. Essa articulação é fundamental para transformar conhecimento em melhores condições de saúde e qualidade de vida,” destaca.
Embora a pesquisa mostre desafios significativos, especialistas ressaltam que uma vida saudável não exige que todos se tornem atletas, mas requer regularidade e compromisso com hábitos sustentáveis. “O primeiro passo é incorporar o movimento à rotina. Para adultos, recomenda-se acumular entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física moderada ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana,” orienta Sebba. Ele conclui que as empresas também devem criar condições reais para escolhas saudáveis, não atribuindo toda a responsabilidade ao trabalhador.
