A Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (USP) lançaram nesta semana os Cadernos Prospectivos da Base Industrial de Defesa (BID). O conjunto reúne oito estudos que mapeiam as principais transformações tecnológicas, organizacionais e ocupacionais que devem impactar segmentos estratégicos da indústria de defesa nos próximos anos, além de identificar competências exigidas e propor recomendações para alinhar a formação profissional às demandas emergentes.
Além da fabricação de armas
Segundo Rafael Sousa, gerente do Observatório Nacional da Indústria, a indústria de defesa vai muito além da produção de armamentos. Ela engloba um ecossistema que inclui empresas, universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos e profissionais que desenvolvem equipamentos, tecnologias e serviços voltados à proteção e segurança nacional. Entre os produtos, destacam-se aeronaves, navios, veículos, satélites, radares, drones, equipamentos de proteção e soluções de segurança digital.
Essas tecnologias, muitas vezes desenvolvidas para fins militares, têm aplicações civis que permeiam o cotidiano: satélites que auxiliam na agricultura e no monitoramento de queimadas, drones na logística, sistemas de comunicação e radares que contribuem para a prevenção de desastres, e a inteligência artificial que já está presente em diversos setores da sociedade.
Os estudos identificaram mais de 120 tecnologias emergentes e novos perfis profissionais que deverão ganhar protagonismo nos próximos anos para acompanhar sua incorporação à indústria.
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Transformação da Base Industrial de Defesa
O levantamento aponta que a transformação da BID é impulsionada por tecnologias que atravessam praticamente todos os segmentos analisados, incluindo aeroespacial, municões, armamentos, plataformas militares marítimas e terrestres, defesa cibernética, sistemas C4ISTAR, uniformes militares, entre outros.
As tecnologias transversais mais relevantes são:
- Inteligência artificial – 100%
- Cibersegurança – 100%
- Engenharia digital – 87,5%
- Integração digital do ciclo de vida – 87,5%
- Sensores inteligentes – 87,5%
- Gêmeos digitais – 87,5%
- Sistemas autônomos – 75%
- Arquiteturas abertas – 75%
- Manufatura aditiva – 75%
- Novos materiais – 75%
Essas inovações devem provocar uma reconfiguração na organização do trabalho, migrando atividades operacionais para funções de integração de sistemas, análise de dados, tomada de decisões e gestão de ambientes complexos e conectados. Consequentemente, a demanda por profissionais com visão sistêmica, competências digitais e capacidade de integrar diferentes áreas aumentará.
Desafios e oportunidades
O documento destaca desafios como dependência tecnológica externa, financiamento insuficiente e irregular, fragmentação da cadeia produtiva, escassez de competências profissionais e vulnerabilidades cibernéticas. No entanto, também aponta oportunidades de impulsionar a inovação tecnológica, fortalecer a soberania nacional, ampliar a cooperação entre empresas, governo e instituições de ensino, desenvolver talentos e reforçar a defesa cibernética.
Exportações em alta
Dados do Ministério da Defesa, compilados pela CNI, mostram que as exportações da Base Industrial de Defesa cresceram 29% no primeiro semestre deste ano, atingindo US$ 1,8 bilhão em autorizações para exportação. Produtos brasileiros já foram enviados a 150 países por meio de 130 empresas exportadoras. Os principais itens vendidos ao exterior incluem aeronaves e componentes, explosivos, bombas, armamentos leves, munições e serviços de engenharia de alto valor agregado.
A Base Industrial de Defesa e Segurança representa atualmente 3,41% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
Em síntese, os Cadernos Prospectivos traçam um cenário de profundas transformações que exigirão uma articulação estreita entre Forças Armadas, indústria de defesa, instituições de ensino e centros de pesquisa. O Brasil tem a oportunidade de transformar desafios em vantagens competitivas, consolidando sua posição no mercado global de defesa e garantindo maior autonomia tecnológica.
