Aposta estratégica do BNDES
Ao longo dos últimos anos, e com maior intensidade em 2025, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem consolidado a agenda de minerais críticos e estratégicos (MCE) como um pilar central para a próxima década. O objetivo é posicionar o Brasil como fornecedor confiável, competitivo e sustentável de minerais e materiais transformados, avançando nas etapas de maior valor agregado das cadeias globais ligadas à transição energética, à digitalização e à soberania produtiva.
Do extrato ao ímã: foco no valor agregado
O plano não se limita a financiar minas. O banco quer impulsionar toda a cadeia produtiva, priorizando o desenvolvimento de terras raras até a produção de óxidos, ligas e ímãs permanentes; o adensamento industrial do lítio, com foco em produtos de grau bateria; e a expansão das cadeias de valor de níquel, cobre, grafite, platina e derivados, além de minerais ligados à segurança alimentar. A lógica é clara: transformar o Brasil de exportador de commodities brutas em captor de margens nos processos de refino, produção de materiais intermediários e manufatura de componentes para as grandes cadeias tecnológicas globais.
Movimentos recentes
Desde 2023, o BNDES tem impulsionado linhas de crédito de longo prazo e baixo custo, por meio do Programa Mais Inovação e do Fundo Clima. Em 2024, em parceria com a Vale, lançou um Fundo de Investimento em Participação dedicado a Minerais Críticos e Estratégicos, permitindo ao banco atuar como sócio em projetos. No ano de 2025, duas iniciativas de grande impacto surgiram: a Chamada Pública para Transformação de Minerais Estratégicos, em conjunto com a Finep, e a atualização do Regulamento Socioambiental e Climático para Mineração, que reforça diretrizes de apoio sustentável e desenvolvimento local. A BNDESPAR, braço de investimento em participações, definiu minerais críticos e fertilizantes minerais como teses prioritárias para investimento direto.
Chamada Pública 2025: 56 projetos e R$ 45,8 bilhões
O maior indicativo de interesse do mercado foi a Chamada Pública BNDES‑Finep, que selecionou 56 projetos, totalizando R$ 45,8 bilhões em investimentos. O portfólio abrange cadeias de terras raras, lítio, níquel, grafite, silício, platina e materiais transformados para baterias, entre outros. O banco já aprovou três operações — Weg, Piauí Níquel e Viridis — e está analisando uma carteira de 12 projetos maduros que podem mobilizar cerca de R$ 9 bilhões em financiamentos, dependendo das garantias oferecidas.
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Desafios de garantias e engenharia financeira
Para transformar esse interesse em realidade, o BNDES precisa superar o desafio das garantias. Projetos de mineração apresentam riscos geológicos, tecnológicos e de mercado que não se encaixam em estruturas de crédito corporativo tradicionais. O banco está avançando em três frentes: avaliação de cofinanciamento e compartilhamento de risco, aprimoramento de estruturas de project finance e atração de investidores externos, como fundos internacionais e agências multilaterais. A estratégia de project finance, consagrada internacionalmente, exige instrumentação sofisticada e a presença de múltiplos financiadores.
O papel do Estado na corrida global
A corrida por minerais críticos intensificou-se nos últimos anos, com Estados Unidos, União Europeia, China, Japão e Coreia do Sul construindo políticas industriais agressivas. O Brasil, com reservas expressivas de terras raras, lítio, níquel e grafite, tornou-se objeto de intensa disputa diplomática e econômica. A resposta brasileira, liderada pelo BNDES, é não apenas exportar minerais brutos, mas agregar valor internamente. A definição de um custo financeiro de 3,0% ao ano para o setor, no âmbito do Plano Brasil Soberano, demonstra o compromisso do governo federal em subsidiar o capital e viabilizar projetos de refino e processamento.
Perspectivas para 2026
Com 12 projetos mais maduros em análise e potencial de R$ 9 bilhões em financiamentos, o BNDES deve ampliar sua carteira aprovada ainda em 2026. A evolução das estruturas de garantia será decisiva para o ritmo de aprovações. Quanto mais o banco conseguir distribuir riscos entre múltiplos agentes, mais projetos do pipeline de R$ 45,8 bilhões poderão avançar da seleção para a contratação efetiva. O Brasil possui o recurso, a demanda internacional existe e a política de financiamento está competitiva. O que resta é construir a engenharia financeira e institucional que transforme esse potencial em cadeias industriais que retenham valor no país, consolidando a aposta do BNDES e, em grande parte, do Brasil em seu futuro industrial.
